Gestão e manutenção

European Accessibility Act 2026: o que o teu site tem mesmo de cumprir

A maioria das PMEs portuguesas descobriu o European Accessibility Act (EAA) pelo email de um auditor a oferecer "conformidade urgente". A urgência é real, o regulamento entrou em vigor a 28 de junho de 2025, mas o pânico vendido não. A obrigação tem âmbito definido, critérios técnicos públicos e janelas de transição que mudam tudo consoante o setor.

Este guia separa o que é obrigatório, para quem, com que prazos, e o que podes auditar sozinho antes de pagar a qualquer consultor.

O que é o European Accessibility Act

O EAA é a Diretiva (UE) 2019/882, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 82/2022. Define requisitos de acessibilidade para um conjunto de produtos e serviços vendidos no mercado europeu, incluindo comércio eletrónico.

Não substitui a legislação que já existia para o setor público (DL 83/2018, WCAG 2.1 AA). Acrescenta obrigações para o setor privado em áreas concretas.

Quem está obrigado (e quem está fora)

Estão obrigados:

  • Lojas online B2C que vendem para consumidores na UE.
  • Serviços bancários para consumidores (homebanking, apps).
  • Plataformas de transporte de passageiros (bilhética, info em tempo real).
  • Serviços de comunicações eletrónicas e media audiovisual.
  • Livros eletrónicos e leitores.
  • Caixas multibanco, terminais de pagamento, máquinas de bilhetes.

Estão isentos:

  • Microempresas de serviços (menos de 10 trabalhadores e volume de negócios ≤ 2M€/ano). Atenção: a isenção não se aplica a produtos.
  • Sites institucionais B2B sem componente transacional para consumidores.
  • Conteúdo de terceiros sobre o qual o operador não tem controlo (ex.: anúncios servidos por rede externa).

A regra prática: se vendes online a particulares e tens 10+ trabalhadores ou faturas acima de 2M€, estás dentro.

A norma técnica de referência: WCAG 2.2 AA

A lei diz "acessível". A norma que dá conteúdo a essa palavra é a WCAG 2.2 nível AA, Web Content Accessibility Guidelines do W3C. Os quatro princípios:

  1. Percetível, texto alternativo em imagens, legendas em vídeo, contraste suficiente.
  2. Operável, navegação por teclado, sem armadilhas de foco, tempo suficiente para interagir.
  3. Compreensível, linguagem clara, mensagens de erro úteis, comportamento previsível.
  4. Robusto, código que funciona com tecnologias de apoio (leitores de ecrã, ampliadores).

O nível AA cobre os critérios médios. O AAA é aspiracional e não é exigido. Foca o AA.

Os 10 itens que mais reprovam em auditoria

Resumo do que cai em quase todas as auditorias de lojas portuguesas. Ataca isto primeiro:

  1. Contraste de texto insuficiente, mínimo 4,5:1 para texto normal, 3:1 para texto grande.
  2. Imagens sem alt ou com alt decorativo aleatório (ex.: "imagem1.jpg").
  3. Formulários sem <label> associados aos campos via for/id.
  4. Botões sem texto, só ícone, sem aria-label.
  5. Foco invisível, outline: none no CSS sem alternativa visível.
  6. Navegação só por rato, menus dropdown que não abrem com Tab/Enter.
  7. Vídeo sem legendas, autoplay ainda por cima, com som.
  8. Mensagens de erro genéricas ("erro") em vez de "introduz um email válido".
  9. Hierarquia de headings partida, H1 → H4, ou múltiplos H1.
  10. Idioma não declarado, falta lang="pt-PT" no <html>.

Cada um destes é falha de critério WCAG concreto. Resolves 8 destes 10 e estás acima da média do mercado.

Prazos e janelas de transição

  • 28 de junho de 2025, entrada em vigor para produtos e serviços novos colocados no mercado.
  • Até 28 de junho de 2030, período transitório para contratos de serviço celebrados antes de 28 de junho de 2025 (podem manter-se até ao fim do contrato, no máximo 5 anos).
  • Até 28 de junho de 2030, terminais de autosserviço já em utilização podem continuar a ser usados até ao fim da sua vida útil económica.

Se a tua loja foi colocada online depois de junho de 2025 e estás dentro do âmbito, já tens de cumprir. Não há "ainda dá tempo".

Multas em Portugal

O DL 82/2022 fixa coimas. Para a generalidade dos operadores económicos:

  • Pessoas singulares: de 250€ a 3.740€.
  • Pessoas coletivas: de 1.500€ a 44.890€ por infração.

O risco maior não é a coima, é a perda de mercado se um cliente apresenta queixa formal e a tua loja é colocada em incumprimento público. Para B2C, isso é dano de marca que vale muito mais do que 45.000€.

A entidade fiscalizadora varia por setor (ASAE para comércio, ICP-ANACOM para comunicações, Banco de Portugal para bancário). Para uma loja online típica de PME, a ASAE é o ponto de contacto provável.

Auditoria DIY: o que consegues fazer sozinho

Antes de contratar consultoria, faz três passes:

1. Automático (cobre ~30% dos problemas). Corre o WAVE, o axe DevTools ou o Lighthouse em modo "Accessibility". Marca todos os errors e fixes-os.

2. Teclado (cobre ~30%). Desliga o rato. Navega o site só com Tab, Shift+Tab, Enter, Space e setas. Não consegues chegar ao carrinho? Falha. Não vês qual elemento está focado? Falha.

3. Leitor de ecrã (cobre o resto crítico). Liga o VoiceOver no Mac (Cmd+F5) ou NVDA no Windows. Tenta comprar um produto só de ouvido. Se não consegues, a tua loja não está acessível para um cego.

Os 30% que sobram (cognitivo, leitura, animação) exigem revisão editorial e por vezes design, onde uma auditoria paga começa a fazer sentido.

Declaração de acessibilidade, obrigatória

Para serviços abrangidos, o operador deve publicar uma declaração de acessibilidade num local visível do site (rodapé é o standard). A declaração diz:

  • Em que medida o serviço cumpre a WCAG 2.2 AA.
  • Conteúdo não acessível e justificação (se aplicável).
  • Mecanismo de contacto para queixas e reporte.
  • Procedimento de execução em caso de não cumprimento.

Modelo de referência: o do acessibilidade.gov.pt (criado para setor público mas serve de molde estrutural). A página de conformidade RGPD e a tua política de privacidade e termos vivem ao lado desta, fazem o trio legal do rodapé.

Como fica o orçamento

Para uma loja WooCommerce típica de PME portuguesa em 2026:

  • Auditoria automática + correções básicas: 0€ a 400€ (ferramentas grátis + algumas horas de developer).
  • Auditoria manual + relatório WCAG 2.2 AA: 800€ a 2.500€ (consultor especializado).
  • Refactor de tema e plugins não acessíveis: 1.500€ a 5.000€ (depende da extensão).
  • Declaração de acessibilidade redigida e publicada: 100€ a 300€.

Se a loja foi construída nos últimos 2 anos com tema atualizado, normalmente fica abaixo de 1.500€ no total. Se está em tema antigo cheio de plugins page builder, pode chegar facilmente a 5.000€.

Casos comuns em PME portuguesa

Padrões que se repetem em auditorias a PMEs portuguesas:

Restauração com reservas online: o formulário de reserva está em iframe de terceiro (TheFork, Zomato) ou em widget proprietário. A acessibilidade depende do terceiro, verifica a conformidade do widget antes de assumir que estás conforme. Em alguns casos, a única solução é reservar via telefone com indicação clara no site.

Lojas WooCommerce: o tema standard cobre bem o básico; os problemas aparecem em plugins de filtros de produto, sliders de imagem, e botões "ajuda" tipo carrinho que aparecem como overlay. Cada plugin é uma fonte de falhas a auditar separadamente.

Clínicas com marcação online: sistemas como Doctoralia ou Médico.pt embarcados em iframe. Igual ao caso da restauração, depende do fornecedor. Marcação por telefone ou WhatsApp continua a ser fallback aceitável e legal.

Sites em Webflow ou Wix: plataformas têm progresso desigual. Webflow tem componentes acessíveis se forem usados corretamente, mas a maioria dos templates do mercado falha contraste e estrutura. Wix melhorou em 2024-2025 mas continua atrás de WordPress com tema bem configurado.

Conteúdo que tens de rever, não só código

Acessibilidade não é só técnica. Também é editorial:

  • Linguagem clara. Critério 3.1.5 da WCAG (nível AAA, recomendado mesmo se não obrigatório): texto compreensível por aluno do 9.º ano. Página de termos com 4.000 palavras de juridiquês falha.
  • Texto alternativo descritivo. "Imagem de homem com camisa azul a sorrir" não acrescenta nada se a foto é decorativa. "Captura de ecrã do dashboard com vendas de janeiro a março de 2026" acrescenta tudo.
  • Vídeos com legendas e transcrições. YouTube gera automáticas, usa-as como base, corrige a mão. Para vídeos que vendem, faz manual.
  • Cores e contraste em PDFs. Se publicas brochuras em PDF, têm de cumprir WCAG também. Ferramenta: PAC 2024 (PDF/UA Checker).

Acessibilidade não é só conformidade

Sites acessíveis convertem melhor. As mesmas regras que ajudam um cego com leitor de ecrã ajudam todos os outros: contraste decente lê-se ao sol, formulários com labels claros falham menos no telemóvel, mensagens de erro úteis reduzem abandono de checkout. O EAA acelera uma boa prática que já existia.

E acessibilidade é fator de SEO indireto, o Google premia sinais como hierarquia de headings, contraste, e estrutura semântica. Cumprir WCAG 2.2 AA melhora também o que se vê do site nos resultados de pesquisa.

Em resumo

Se vendes online a consumidores e tens 10+ trabalhadores ou faturas acima de 2M€, o European Accessibility Act aplica-se à tua loja desde 28 de junho de 2025. A norma técnica é a WCAG 2.2 AA. As multas em Portugal vão até 44.890€ por infração, mas o risco real é a queixa pública e o dano de marca. A maior parte dos problemas resolve-se com uma auditoria automática + revisão de teclado + correção dos 10 itens mais comuns, orçamento típico abaixo de 1.500€ para uma loja recente. O resto é declaração de acessibilidade no rodapé e processo de queixa.


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