Gestão e manutenção

Mudar de alojamento sem ficar offline: migração com zero downtime

Mudar de alojamento web é uma das operações onde mais sites portugueses ficam offline horas — não por dificuldade técnica, mas porque o procedimento é feito ao contrário. Move-se o site, depois muda-se o DNS, depois descobre-se que algo partiu, depois o site está offline durante 24h enquanto se debugga em pânico.

A boa notícia: existe um procedimento testado de 9 passos que reduz o downtime efetivo para perto de zero. A regra de ouro: nunca apontar o DNS para o novo alojamento até o site novo estar 100% funcional e idêntico. O resto é executar com calma.

Quando faz sentido mudar de alojamento

Sinais verdes para migrar:

  • Site lento crónico (LCP >3s no telemóvel mesmo otimizado).
  • Suporte que demora dias a responder ou ignora tickets.
  • Preço subiu sem aviso ou sem melhoria.
  • Crashes recorrentes em horas de pico.
  • Plano não escala (CPU/RAM apertados).
  • Alojamento sem staging, sem SSH, sem backup automático em 2026.

Sinais para esperar:

  • Acabaste de fazer redesign — fica 1-2 meses para estabilizar antes de migrar.
  • Black Friday / Natal a chegar — migra antes ou depois, nunca durante.
  • Não tens janela para fazer pelo menos 4-6 horas focadas.

Ver alojamento afeta velocidade.

O princípio: dois sites a correr em paralelo

Migração zero downtime funciona porque, em vez de mover o site, clonas o site para o novo alojamento. Os dois ficam a correr em paralelo durante algumas horas. Só quando o novo está testado e perfeito é que mudas o DNS. Quem visita o site durante o switch nem nota.

Implica: continuas a pagar o alojamento antigo durante 1-2 semanas extra. Custo trivial face ao benefício.

Os 9 passos do procedimento

Passo 1 — Baixa o TTL do DNS (48-72h antes)

O TTL (Time To Live) diz aos resolvers de DNS quanto tempo cachear o registo. TTL típico: 14400 segundos (4h) ou mais.

Reduz para 300 segundos (5 minutos) pelo menos 48h antes da migração. Onde mudar:

  • Se DNS é gerido pelo registrar (DNS.pt, Namecheap, GoDaddy) → painel do registrar.
  • Se usas Cloudflare → DNS records → TTL.
  • Se DNS é do alojamento antigo → painel do alojamento.

Sem isto, mesmo depois de mudares o DNS, alguns visitantes vão continuar a aterrar no alojamento antigo durante horas.

Passo 2 — Contrata o alojamento novo e prepara o ambiente

  • Aciona o novo alojamento.
  • Verifica versão PHP recomendada (8.1+ para WP 6.x).
  • Cria base de dados vazia e utilizador.
  • Anota credenciais (FTP/SFTP, MySQL, painel).
  • Verifica espaço em disco vs tamanho atual do site (incluindo wp-content/uploads/).

Passo 3 — Faz backup completo do alojamento antigo

Backup completo:

  • Ficheiros (raiz do WordPress + wp-content/).
  • Base de dados (export SQL).
  • Configurações de email se mudas mailbox também.

Ferramentas:

  • Duplicator ou All-in-One WP Migration — criam pacote único.
  • UpdraftPlus — backup separado, restauro mais flexível.
  • Manual (SSH + mysqldump) — para sites grandes (>5 GB) é mais rápido.

Ver cópias de segurança.

Passo 4 — Restaura no alojamento novo

  • Upload do pacote / ficheiros para o novo servidor.
  • Importa SQL para a base de dados nova.
  • Atualiza wp-config.php com novas credenciais de DB.
  • Atualiza URLs na base de dados se preciso (ferramenta Better Search Replace).

Passo 5 — Acede ao site novo via hosts file (sem mudar DNS)

Aqui está o truque que evita downtime. Edita o ficheiro hosts do teu computador para mapear o domínio ao IP do novo alojamento:

  • Mac/Linux: /etc/hosts
  • Windows: C:\Windows\System32\drivers\etc\hosts

Adiciona uma linha:

123.45.67.89   teudominio.pt www.teudominio.pt

(Substitui pelo IP do novo alojamento.)

Agora, quando abres teudominio.pt no browser, vais ao novo alojamento. Toda a internet continua a ver o antigo. Podes testar à vontade.

Passo 6 — Testa o site novo a sério

Com hosts file apontado, testa:

  • Homepage e páginas internas carregam.
  • Imagens aparecem (links absolutos podem partir).
  • Login no admin funciona.
  • Formulário envia email a partir do novo SMTP.
  • Loja: produto adiciona ao carrinho, checkout completa.
  • SSL ativo (HTTPS sem aviso de "não seguro").
  • Search Console: nenhum erro novo.
  • PageSpeed: LCP do novo alojamento melhor ou igual ao antigo.
  • WP Cron a correr corretamente.

Se algo falha, corrige no novo alojamento antes de mudar DNS. Ver migrar site sem perder SEO.

Passo 7 — Sincroniza diferenças de última hora

Entre o backup do passo 3 e a migração efetiva, o site antigo pode ter recebido:

  • Encomendas novas (loja).
  • Comentários em posts.
  • Formulários submetidos.
  • Posts editados.

30 minutos antes do switch DNS:

  • Faz export incremental da base de dados antiga (tabelas wp_posts, wp_postmeta, wp_users, wp_woocommerce_*).
  • Importa para a nova.

Para sites com transações em tempo real (loja ativa), considera modo manutenção no antigo durante o switch. 15 minutos de manutenção planeada > 6 horas de downtime acidental.

Passo 8 — Muda o DNS

Agora, o switch oficial:

  • Vai ao registrar/Cloudflare/onde quer que controles DNS.
  • Aponta os registos A (e AAAA se aplicável) para o IP do novo alojamento.
  • Atualiza www (CNAME ou A) também.
  • Confirma que o TTL ainda é 300 segundos.

Em 5-10 minutos, a maioria dos visitantes começa a aterrar no novo. Em 2-4h, praticamente todos.

Passo 9 — Monitoriza 48h + reverte TTL

  • Logs do novo alojamento — confirma tráfego a chegar.
  • GA4 — tráfego mantém-se? Sem queda?
  • Search Console — erros 5xx? Sitemap acessível?
  • PageSpeed — performance mantém-se?

Quando tudo estiver estável (24-48h depois), sobe o TTL de volta para 3600s ou superior.

E só uma semana depois cancelas o alojamento antigo. Garante que ninguém ficou pelo caminho e que tens fallback se descobres problema escondido.

O que normalmente parte (e como evitar)

ProblemaCausaSolução
Imagens partidasURLs absolutas com domínio antigoBetter Search Replace na DB
Formulários não enviamSMTP do alojamento mudouPlugin WP Mail SMTP com SMTP externo (Resend, Brevo)
Email de saída falhaReverse DNS / SPF erradosConfigurar DKIM/SPF no novo
HTTPS dá erroSSL não emitidoEsperar Let's Encrypt (até 1h) ou copiar cert
Cron jobs falhamServidor diferente, paths diferentesReconfigurar via plugin ou cron externo
Login admin não funcionaCookies cacheadosLimpar cache do browser + cookies
Site lento de inícioCache vaziaAquecer cache com plugin ou crawl

Casos especiais

Loja online com transações em tempo real

Não consegues zero downtime perfeito. Estratégia recomendada:

  • Janela de manutenção planeada de 30-60 minutos.
  • Avisa clientes 48h antes (newsletter, banner, redes).
  • Faz no momento de menor tráfego (madrugada de domingo).
  • Tem checklist pronto e testado em staging.

Site multilingue

Verifica que todos os idiomas apontam para o novo alojamento. Plugins como WPML/Polylang podem ter caminhos absolutos hard-coded.

Sites com CDN à frente

Se usas Cloudflare em modo proxy (laranja), o DNS já está cacheado por eles. Switch mais suave — basta atualizar o IP de origem na Cloudflare. Não precisas de baixar TTL do registrar.

Email no mesmo domínio

Se o email também sai do alojamento antigo, migra MX records separadamente. Não confundas registos web com email — podem (e devem) ficar em servidores diferentes.

Quanto tempo demora na realidade

Para um site WordPress de PME típico (5-10 GB, 30-50 plugins):

  • Preparação (TTL, alojamento novo): 1 semana antes (2h trabalho).
  • Migração efetiva (passos 3-7): 2-4h de trabalho focado.
  • Switch DNS + monitorização: 1-2h.
  • Confirmação total + cancelamento antigo: 1 semana depois.

Total: 4-7h de trabalho real, distribuídos ao longo de 1-2 semanas calendário.

Quando contratar ajuda

Faz sentido contratar agência ou alojamento com migração assistida quando:

  • Site tem >10 GB ou >500 produtos WooCommerce.
  • Há funcionalidades custom (plugins próprios, integrações ERP).
  • O downtime tem custo direto >100€/h.
  • Não tens calma para 4-6h de trabalho focado.

Custo médio em PT: 150-600€ para migração WordPress padrão. Vale cada cêntimo se o site é negócio.

A regra que junta tudo

Migração zero downtime não é magia técnica — é paciência procedimental. O TTL baixado a tempo. O site testado via hosts antes do switch. A sincronização de última hora. A monitorização paralela durante 48h. Cada um destes elementos isolado é trivial; juntos, transformam uma operação tipicamente dolorosa em rotina chata.

A maior parte dos "sites offline durante 12h" não é problema de servidor — é problema de procedimento. Faz na ordem certa e ninguém percebe que migraste.


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